Cardiologista denúncia ao Sindicato dos Médicos negligência na Saúde de Anápolis

Segundo ele, doentes que precisam do SUS estão morrendo por causa de uma omissão administrativa.

"É a situação mais complicada que já presenciei em todos os meus anos de profissão". A declaração é do especialista em cirurgia cardiovascular, Walter Vosgrau, que já atua há 20 anos em Anápolis. Segundo ele, negligências administrativas estão matando pacientes que aguardam cirurgias de coração na fila do SUS no município. Ele procurou o Sindicato dos médicos para denunciar o problema, que teve início em maio desse ano.

Para Vosgrau, tudo começou quando empresas que vendem oxigenadores e válvulas reajustaram os preços do equipamento cerca de R$ 400 acima da tabela do SUS, alegando alta do dólar e dos custos de insumos de fabricação, além do reajuste de ICMS de São Paulo, onde ficam essas empresas, para 17%. Na época, o reajuste gerou um travamento nas cirurgias de todo o país, mas municípios considerados pólos regionais, como Goiânia, driblaram o problema, cobrindo a diferença com recursos próprios.

Já em Anápolis, a cirurgia cardíaca parou. "Desde então, iniciei uma intensa campanha para que o município fizesse o mesmo, cobrindo a diferença, uma vez que os pacientes são graves e precisam ser operados imediatamente", explica o profissional. Sem uma resposta da prefeitura, Vosgrau foi até o presidente da Câmara, Leandro Ribeiro, pedir ajuda. Leandro teria preparado um projeto de lei para regulamentar a cobertura dessa diferença com recursos municipais. Mas o HEG - Hospital Evangélico Goiano, onde são feitas as cirurgias cardíacas pelo SUS, teria demorado a fornecer um documento oficial com os valores da cobertura, inviabilizando o esforço do Legislativo.

Foi tentada então uma terceira solução, por sugestão do Presidente da Câmara, Leandro Ribeiro. Arrecadar recursos junto à empresários locais para adquirir oxigenadores e válvulas, tornando possível o retorno dos procedimentos. Os valores seriam doados à Fundação James Fanstone, ligada ao HEG. Mas, novamente, impedimentos legais por conta da chamada Lei de Complience, não permitiram que esse plano se concretizasse. Foi então que a espera se tornou longa demais e os pacientes começaram a procurar a Justiça para obterem sentenças que obrigassem o município a realizar as cirurgias.

De acordo com Walter, foi aí que a Secretaria Municipal de Saúde passou a reter as chamadas AIHs - Autorizações de Internações Hospitalares dos pacientes cardiopatas com indicação cirúrgica. "Estão fazendo isso para evitar que os doentes graves entrem na Justiça para obterem legalmente o direito de continuarem vivendo. É o maior absurdo que já presenciei em toda a minha carreira", disse o médico. Vosgrau explica que, antes que a Secretaria começasse a reter as AIHs já haviam 62 pacientes, só dele, com indicação cirúrgica urgente aguardando uma solução para o impasse.

Entretanto, com a retenção dos documentos, ele estima que esse número esteja hoje beirando os 80. "Infelizmente as mortes já começaram a acontecer. Já soube de quatro óbitos de pessoas que poderiam ter sido salvas se tivessem se submetido à cirurgia. E a tendência é de que esse número aumente, uma vez que ainda não existe uma saída sendo discutida pelo município", lamenta o médico. "São pessoas que estão morrendo por conta de uma diferença de R$ 400 reais para a compra de cada conjunto de oxigenador e válvula. Um absurdo tão grande que eu só acredito porque estou vendo acontecer", desabafa ele.